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Por simpatia à técnica, gosto estético ou impulsionado
por uma preocupação atual – a construção civil é uma das que mais causam
impacto ambiental –, o adobe tem sido revisitado. E aos poucos vai criando
oportunidade de retirar a poeira de alguns conceitos. “O uso da terra crua é
uma importante contribuição para a economia de energia e a redução da poluição
no planeta”, diz o engenheiroe arquiteto alemão Gernot Minke, diretor do
Laboratório de Construções Experimentais da Universidade de Kassel e
considerado uma das maiores autoridades no assunto.
São muitas, aliás, as energias economizadas numa
construção como essa. Feitos de barro e um pouco de palha para dar liga – às
vezes com pitadas de cal ou cimento, usados como estabilizante –, os tijolos de
adobe, diferentemente dos cerâmicos, não passam pela etapa da queima em fornos
de alta temperatura. Secam à sombra ou ao sol, evitando, com isso, desmatamento
– pois não é necessário lenha para alimentar os fornos– e liberação de gás
carbônico no ar, resultado da combustão. A obra limpa não causa impacto nem
mesmo com transporte, uma vez que o tijolo pode ser produzido com o solo do
local da construção. Outra qualidade da técnica é sua inércia térmica, ou
conforto térmico. “Uma casa feita de terra crua respira e não gera mofo”, diz
Peter van Lengen, bioarquiteto e coordenador do Tibá, instituto de bio arquitetura
localizado em uma fazenda próxima a Nova Friburgo, RJ. O arquiteto Gugu Costa,
de São Paulo, coloca na marca do termômetro o prazer que essa característica do
adobe traz: “A temperatura média de conforto para o corpo humano é de 22 a 28
graus. Uma casa de tijolo e telha cerâmica, no verão, amanhece com temperatura
de 17 graus em seu interior e à noite pode chegar a 34 graus. Por isso, vai
precisar de ar-condicionado – o que representa um gasto energético e
financeiro. Já uma parede de terra crua fará com que essa casa, com o mesmo
layout, acorde com 22 graus e durma com 28 °C, o que é praticamente a
temperatura de conforto do ser humano”. A explicação é a composição e a
espessura (em geral 25 cm) do bloco de adobe, em média três vezes maior que o
cerâmico, que atrasa a passagem do calor. O benefício para a saúde merece
destaque. “O barro funciona como um filtro natural. Ele permite que haja uma
absorção de umidade e depois uma evaporação dessa umidade, purificando assim o
ar”, explica o designer André Soares, um dos fundadores do Eco centroIpec –
referência em permacultura e bioconstrução na América Latina –, em Pirenópolis,
GO.
Como surgiu
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Derivada da palavra árabe “thobe”, que significa barro,
o adobe data de mais de 5 mil anos. Encontra-se, ao lado de outras técnicas com
terra crua, como a taipa e o pau a pique, espalhado pelos continentes. Da
África às Américas, da China ao Oriente Médio e à Europa, há edificações
milenares que continuam de pé. As Muralhas da China, um dos mais antigos
monumentos arquitetônicos do mundo, são de terra. Não se desfizeram com a
chuva. “Existe um ditado que diz: a construção com terra deve ter os mesmos
cuidados que temos ao sair na chuva. Um bom par de botas, uma capa e um
guarda-chuva. Ou seja, a construção precisa ter uma boa fundação, que eleve a
alvenaria do solo, ter um bom revestimento e um telhado com um beiral generoso,
evitando assim contato com a umidade e intempéries”, explica a arquiteta
Jaqueline Vale, que defendeu sua dissertação de mestrado sobre esse tema
estudando as casas de barro de Bichinho, distrito no interior de Minas Gerais.
Mais um motivo de preconceito vem da desinformação acerca da presença do inseto
barbeiro. “Se mal feitas e mal conservadas, tanto uma casa de barro quanto uma
de concreto deixam frestas onde o bicho pode se instalar. Não é um problema
intrínseco do barro. É mais uma questão de acabamento e higiene”, explica Obede
Borges Faria, engenheiro civil, mestre em arquitetura, doutor em ciências da
engenharia ambiental e professor da Faculdade de Engenhariada USP de Bauru.“
Há mansões de adobe e elas não têm o inseto”, enfatiza
Gugu. “A razão é serem bem vedadas estruturalmente. Além disso, o barbeiro só
vai transmitir a doença de Chagas se tiver picado um animal contaminado pelo
parasita”, contextualiza. A industrialização na década de 30, as estradas de
ferro, que permitiram transportar diferentes materiais construtivos para qualquer
lugar, e a avidez por novidades – marca do consumidor moderno – acabaram
fazendo o adobe desaparecer onde o desenvolvimento foi mais veloz.“ A disputa
por cada centímetro de espaço em metrópoles como São Paulo também fez as
robustas paredes de 25 a 50 cm de adobe perder em lugar”, lembra o arquiteto
Paulo Montoro, de São Paulo, defensor da técnica, inclusive como opção de
moradias populares.
Opinião compartilhada pelo arquiteto paulista Hélio
Dias, que nos anos 80 defendeu sua tese de doutorado no Instituto Grenoble, o
principal centro de estudos da arquitetura de terra, na França. O tema,
soluções de culturas construtivas para habitações de interesse social, propunha
a construção com terra crua como alternativa para a favela. “Sem deslocar as
pessoas de seu hábitat, elas poderiam construir com uma matéria-prima abundante
e passar a ter uma condição de moradia superior”, diz o especialista. “É triste
ver que as casas da CDHU em cinco anos começam a apresentar patologias. As
portas não funcionam, o reboco cai, surgem rachaduras. E o morador ainda vai
demorar 20 anos para quitar sua casa”, declara. Presidente da Associação
Brasileira de Ensino de Arquitetura nos anos 90, época em que a construção de
terra ganhou mais espaço na base curricular dos universitários, Hélio defende
um tijolo de adobe prensado, cujo desempenho é ainda melhor. “O Bloco de Terra
Comprimida é o upgrade do adobe. Feito a mão e comprimido com a ajuda de uma
prensa simples e barata, continua a ser um trabalho doméstico, contudo permite
produção em maior escala”, afirma Hélio.
Vantagens
A principal vantagem consiste em ser um material
ecológico e sustentável, já que o barro é um elemento reutilizável, e quando
não cozido, pode ser triturado e umedecido para voltar ao estado original. Sua
produção não necessita de grande quantidade de energia e ainda é um excelente
isolante térmico, mantendo a temperatura dos ambientes sempre balanceados. Além
disso, construções de adobe podem absorver até 30 vezes mais umidade do que uma
de tijolo cozido.
Desvantagens
O principal problema é que as construções com tijolos
de adobe precisam ser protegidas da umidade, e não são todos os locais onde se
pode implementá-lo, já que ele se desintegra facilmente em contato direto com a
chuva. Seu uso também não é próprio para edifícios com mais de um pavimento.
Além disso, o barro não é um elemento padronizado, podendo variar a quantidade
e o tipo de areia, argila e outros agregados de cada lugar onde a terra é
extraída. Outra desvantagem é que ao secar, o barro se contrai e podem aparecer
fissuras. Para diminuir este processo é necessário, enquanto o tijolo seca, mantê-lo sempre umedecido para que não seque
rápido demais.
Quanto vale
Embora o principal atrativo não seja o econômico, mas
sim o ambiental, uma matéria no respeitável jornal inglês de economia Financial
Times não só apontou a construção com terra crua como responsável pelas casas
mais avançadas e sustentáveis do mundo contemporâneo como divulgou uma
estimativa do governo escocês em que o impacto de uma construção com terra
equivale apenas a 1% do gasto energético utilizado em uma construção de
alvenaria convencional.
Fontes: https://casa.abril.com.br

